Que a menor distância entre dois pontos é uma reta, isso ninguém discute. Mas também é consenso que o Universo é curvo.
Em um universo de mercado aonde, por muito tempo vem prevalecendo a tendência de linhas retas, as formas orgânicas aparecem muito mais como um antagonismo à primeira do que apenas um contraponto. As peças
de design, mais especificamente as de mobiliário, tem estado sob o julgo de uma verdadeira ditadura das linhas retas, que como linguagem já dá mostras de cansaço, dadas as limitações, não só dos materiais
aplicados, mas principalmente pelo esgotamento da linguagem em si. O resultado deste esgotamento é evidente na semelhança das peças, independente da tipologia do móvel, de designers ou fabricantes. Estas
semelhanças acabam refletidas nos trabalhos dos arquitetos e designers de interiores, que ficam limitados a estas linguagens. As peças com linhas orgânicas entram nos cenários onde predominam as linhas
retas, muito mais como contraponto do que como complemento, como se fosse possível entre as duas, apenas o convívio, mas nunca o diálogo. Ultimamente e a partir deste princípio, tenho desenvolvido um
trabalho que busca justamente promover o diálogo entre estas duas vertentes, onde o desafio é estabelecer uma convivência harmônica entre elas, em uma mesma peça. É um exercício divertido e excitante, quase
uma prática de subversão, e os resultados tem sido surpreendentes. Dependendo do ângulo do qual se observa a peça, do que antes parecia uma reta, desvenda-se lentamente uma curva, e vice versa. É um aspecto
lúdico que convida o olhar mais curioso a deslocar-se entorno da peça, e observar estas transformações. As peças tem pontos de transição entre curva e reta, em que uma pequena mudança de ângulo dá inicio a
uma transformação, onde a reta ancora a curva e a curva "subverte" a reta. Neste aspecto, a inserção destas peças em ambientes onde predominam as linhas retas acontece de uma forma mais branda, suavizando os
espaços, como um objeto de transição entre a dureza funcional das linhas retas e as curvas do corpo humano. Elas se encaixam e dialogam com as linhas retas, que nos dão o conforto psicológico, com sensação
de solidez e segurança, através da referência no seu prumo e nível, aliado ao conforto e aconchego ao corpo que só uma curva pode dar. A simplicidade do desenho é também uma conseqüência deste exercício,
já que na medida em que o desenvolvimento da peça avança, os excessos são eliminados naturalmente. E hoje, mais do que nunca, "menos é mais", agora não apenas como uma orientação formal, mas como necessidade
de um comportamento ambientalmente correto, já que menos consumo de materiais, menos gasto de energia e menos desperdício significam mais eficiência. Se é que se pode falar em tendência, acredito que
esta proposta é um campo fértil e cheio de possibilidades a ser explorado num futuro próximo, através da concepção de projetos arquitetônicos que priorizem e proporcionem mais fluidez em seus espaços, com
mais interação entre as paredes e a vida que acontece entre elas. |