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edição 14 de Abr/08 |
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Surface Design ou Design de Superfície: o que é isso? |
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Uma conversa franca e aberta com Renata Rubim (*) |
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O design de superfície está presente nas nossas vidas desde o momento em que acordamos até o momento em que adormecemos. E,
inclusive, nos nossos sonhos, embora a maioria das pessoas não saiba o que é. Mesmo os designers de outras especialidades ficam espantados ao ouvirem tal denominação. Surface design. Foi assim que eu ouvi
pela primeira vez. Naquele momento me deu o "click"! Surface Design! Claro! Não podia haver expressão mais clara para definir o que eu fazia! Isto foi em 1985, em Providence, EUA, na Rhode Island School of
Design! Eu já trabalhava com design na época em que fui contemplada com a bolsa americana Fulbright e sempre definia o meu trabalho como "design têxtil" e "de papéis", mesmo que a minha produção vez ou
outra fosse em azulejos ou em superfícies plásticas, por exemplo. Era óbvio que designer de superfícies era o que eu era, então! Após a permanência de 15 meses naquele país voltei ao Brasil trazendo na minha
enriquecida bagagem a nova denominação para a minha atividade. Não há mistério em saber o que faz um surface designer. Ele projeta: superfícies têxteis, superfícies cerâmicas, de vidro, de borracha, de
metal etc. Em cada uma destas áreas podem haver sub-áreas e se pensarmos, por exemplo, numa superfície têxtil, abre-se um leque variado de possibilidades. Vamos ver? Pense num tecido. |
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Figura 1 - Tecido estampado, Susan Collier. |
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Figura 2 -Tecido tramado, Renata Rubim. |
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Surgem algumas alternativas. É isto mesmo. Um tecido pode ser estampado. Quem sabe uma camiseta (T-Shirt), ou o seu lençol preferido.
Bem, mas pode também ser o revestimento dos assentos dos ônibus intermunicipais, assim como pode ser o tecido do sofá da sala de estar. Como estamos no universo têxtil podemos migrar de tecidos para
tapetes facilmente. Outro produto e, portanto, com natureza, qualidades e funções diversas. Se você pensar em tapete poderá vir em sua mente outras possibilidades. Por exemplo, o tapete poderá ser: de
desenho "clássico" ou contemporâneo; de uso residencial ou comercial; de produção industrial ou não. Atualmente, é dado muito valor aos tapetes produzidos artesanalmente no Oriente, principalmente quando
se agrega à peça um bom projeto de design e de cores. Isto abre um novo canal de trabalho tanto à mão de obra tradicional (trabalho preciso e meticuloso, resultado de conhecimento às vezes milenar), quanto
aos designers fascinados pelo têxtil. |
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Figura 3 – Tapete, Joan Weissman. |
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O designer que escolhe trabalhar com tecidos que têm na sua estrutura um projeto, normalmente tem que ter um conhecimento específico e
aprofundado sobre teares e processos de tecelagem. Com a crescente sofisticação tecnológica surgem novos produtos e materiais e suas conseqüentes possibilidades e resultados. A base do conhecimento requerido
é o antigo modelo de tecer aliado hoje aos diversos softwares. Portanto, enquanto o tecido estampado tem um projeto "aplicado" sobre ele, o tecido tramado ("pied de poule", jacquard (**
), espinha de peixe) tem o projeto na sua estrutura, ou seja, o tecido é concebido através do projeto. |
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Isto, portanto, significa que o tecido é um produto. O lençol é um produto. O tapete também é um produto. Certo? Certo. Pode,
então, o design de superfície ser também design de produto? Claro! Ou seja, o surface design não é sempre um projeto ou um tratamento de superfícies. Quando o projeto se constitui (ou se limita) à superfície
de um produto, ele é design de superfície. No caso do tapete, além de ser design de superfície é design de produto. Agora é importante nos determos no conceito design de superfície. Quando uma
superfície recebe um tratamento estético, este tratamento é cosmético? A contribuição do surface design num produto tem apenas apelo superficial? É esta a função do design de superfície, tornar algo
"bonitinho"? Sabemos que no caso de o produto ser a superfície (ou a superfície ser o produto) isto não se aplica. Então, vamos levar a reflexão para um exemplo mais adequado, um prato, ou seja, uma peça
de porcelana utilitária. Consideramos que está peça é fabricada seguindo um modelo básico tradicional, boa qualidade e o seu diferencial de desempenho no ponto de venda estará na cor ou no desenho aplicado.
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Como estamos falando sobre design, e não sobre arte, a relação da peça com o seu consumidor é, a meu ver, fundamental. É a qualidade
de um projeto que vai estabelecer um diálogo com o público alvo. Provavelmente este parágrafo acima estará sujeito às mais diversas avaliações, e pode ser alvo de polêmica, já que toca em aspectos
difíceis de serem definidos, tais como: estética, arte, design, mercado e valor. Respeitando diferentes posições, seguimos em frente lembrando que no design de superfície a principal característica (ou
função) se refere ao "belo" e não ao "útil" e este é o fator que pode provocar, às vezes, uma certa discriminação à atividade. Eu pergunto: se há um profissional trabalhando para deixar um produto mais
atraente, que valor deve ser dado a isso? Será um tratamento ou trabalho cosmético, apenas? Não se pode responder genericamente, é uma reflexão a se fazer com bases em diferentes áreas. Um bom
profissional certamente terá que estudar vários aspectos envolvidos com o processo fabril do produto, com a filosofia da empresa, com as metas do seu cliente e com o momento em que será feito o lançamento.
Ou seja, os mesmos aspectos válidos para todas as áreas do design. Portanto, conclui-se que não é um trabalho cosmético apenas. Nem tampouco superficial. Saindo da atividade têxtil, mas continuando a
reflexão em revestimentos, podemos pensar nos emborrachados que cobrem metros e metros de pisos públicos, tais como, aeroportos, shows-rooms, interiores de automóveis, e assim por diante. Nestes casos,
normalmente são focadas características como praticidade de uso, resistência, bom comportamento em resultados modulares. Características estas que podemos enquadrar mais no terreno da utilidade e não da
beleza! Continuamos nosso pensamento em revestimentos e escolhemos os de natureza cerâmica. Poderemos constatar que, devido à semelhança ao emborrachado, algumas qualidades, como a resistência e a
aplicabilidade, são essenciais. Serão necessários também conhecimentos técnicos específicos além da área do design como química, física, engenharia. Por isto, nestes exemplos e em outros, há a necessidade de
trabalho conjunto entre profissionais para conjugar eficiência tecnológica, mercadológica e estratégica. O trabalho em equipe é sempre enriquecedor, porque são somados conhecimentos, talentos e diferentes
pontos de vista. As pessoas que integram equipes têm muitas possibilidades de crescimento pessoal e profissional o que por si, já é um fator contribuinte ao bom resultado. Com a velocidade dos avanços
tecnológicos, das mudanças que ocorrem em todos os lugares e na informação, os profissionais de hoje, qualquer que seja a área, têm total necessidade de se manterem muito informados, cada vez mais. A
informação, plural, cultural e humanista, de um designer pode ser o diferencial básico na sua carreira. Voltando ao design de superfície, e elegendo o suporte papel como foco, verificamos um amplo
universo de possibilidades. Desde o papel de parede até o papel de presente pode-se perceber novamente a função de revestir. Nestes dois exemplos as escalas são opostas, já que o primeiro vai se mostrar,
quase sempre, em grandes dimensões e o segundo aparecerá em diferentes formatos e aplicações. É interessante destacar que é neste suporte – o papel – em que o design de superfície pode muitas vezes ser um
grande aliado do designer gráfico. E é por isto que tantos profissionais da área gráfica vez ou outra interessam-se em saber mais do design de superfície. (O mesmo se aplica aos web-designers, sem dúvida).
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Figura 6 - Papel de parede, Jocelyn Warner. |
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Figura 7 - Papel de presente, Adam e Maurice Verneuil, 1925. |
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Figura 8 - Site Irmãos Campana, agência F/Nazca Saatchi & Saatchi. |
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Até aqui falamos sobre algumas superfícies. Se o designer, em geral, é um profissional que deve achar soluções e que deve inovar, a
criatividade é uma ferramenta indispensável. E pode sempre ser exercitada e estimulada através de metodologias próprias. Todas as pessoas têm o seu núcleo criativo e quando este está inativo, deve ser
trabalhado. A criatividade serve, obviamente, não somente no terreno estético, ela é fundamental para se descobrir soluções aos problemas dos nossos clientes, do nosso projeto, enfim às mais diversas
situações de nossas vidas. Este breve devaneio filosófico é para, voltando ao tema superfícies, podermos refletir para quebrar alguns pré-conceitos como, por exemplo, quando pensamos em bordados, muitos
de nós provavelmente teremos nossa memória remetida a algo com identidade "antiga" ou manual, artesanal, popular. Outros pensarão talvez em bordados institucionais (logotipos de marcas famosas ou de clubes
de futebol) confeccionados com tecnologia informatizada. Mas o bordado poderia ser explorado de outras maneiras. Por que refletir criatividade e bordado? Porque embutido neste pensamento há, na verdade,
a intenção de se aliar ao assunto design além de conhecimento e criatividade, tecnologia e curiosidade. O profissional de hoje deve perceber, além dos nichos de mercado para o seu produto e para o seu
cliente, a situação difícil que o nosso planeta vem enfrentando, e vai enfrentar cada vez mais, e aliar isso à consciência empreendedora, tão em voga no momento. Acredito que, posicionando-se, assim, nenhum
designer será superficial! |
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Figura 9 - Detalhe Bordado. |
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O mercado de trabalho para o designer de superfície ainda não é compatível com a sua capacidade principalmente por falta de informação
do setor empresarial, ou seja, o desconhecimento a respeito do potencial que este profissional possui. As empresas utilizam quase sempre profissionais do marketing, ou "estilistas" (assim denominados pelas
empresas aquelas pessoas que trabalham nos departamentos de criação e estilo) para desempenhar a função de perceber tendências, de eleger os caminhos das cores e dos estilos, de tentar atender ao consumidor
final. Enquanto isto falta, muitas vezes, a estes eleitos, o necessário conhecimento formal, estético e fundamental para fazer uma escolha afinada. Para mudar esta realidade, nada melhor do que
informação, informação e informação. À exaustão! E isto é compromisso nosso – dos designers de superfície, através de cursos, palestras, textos, entrevistas, todo o tipo de "propaganda" necessária. Outra
questão que me interessa e que sei pode ser polêmica é a atuação no surface design de profissionais formados em outras áreas. E não apenas os profissionais com formação em design, como também os arquitetos,
artistas plásticos, artesãos. Será porque o design de superfície é um aspecto "menor" no universo do design? Ou porque assim é considerado? Não sei, só sei que eu não ouso atuar em design gráfico por
perceber que não possuo o conhecimento adequado. Isto claro, não impede que os designers em geral, os arquitetos, e alguns publicitários se sintam capacitados de usar suas aptidões na criação de um tapete ou
um jogo de roupa de cama para grandes empresas. O principal aspecto aqui não é a formação deste profissional, mas sim se ele é capacitado culturalmente e experiente para atender às necessidades requeridas.
Antes de finalizar, é importante que se tenha bem claro que o bom designer de superfície desempenha um papel importantíssimo na saúde de uma empresa, seja ela do ramo têxtil, cerâmico, etc.
Conseqüentemente, ele está também sendo um bom cidadão, colocando seu conhecimento para gerar empregos, oportunidades e aprimoramento cultural e estético, em produtos destinados a todos os segmentos da
sociedade.Renata Rubim Designer de Superfície
Referências bibliográficas: RUBIM, Renata. Desenhando a Superfície. 1ª ed. São Paulo: Rosari, 2005.
(**)
Cf. RUBIM (2005) Jacquard: nome do tear e da técnica inventados pelo francês que viveu nos séculos XVIII, Joseph-Marie Jacquard. O tear utiliza cartões previamente perfurados e é capaz de tecer padronagens que os teares comuns não são capazes de executar, com curvas e figuras, por exemplo.
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(*) Quem é Renata Rubim? Renata Rubim
é designer de superfícies e consultora de cores. Colabora com a difusão do design em projetos industriais e educativos. Profere palestras e ministra workshops em diversos estados do Brasil sempre com o intuito de compartilhar conhecimento adquirido enquanto freqüentou a Rhode Island School of Design, Providence, USA, com uma bolsa Fulbright.
É de sua autoria o livro "Desenhando a Superfície", Ed. Rosari, SP, primeiro no Brasil sobre o tema. O escritório Renata Rubim Design & Cores (www.renatarubim.com.br
) atende a clientes de diferentes segmentos, que
investem em design, criando conceitos diferentes que geram inovação e valorizam o produto brasileiro. Mas quem é Renata? " A Renata é uma artista que tem o pleno domínio da forma,
da cor e da textura. Já criou 02 revestimentos para a
Solarium que estão sendo verdadeiros sucessos, tanto dentro do Brasil como no exterior. Mas o que mais me encanta na Renata é o ser humano maravilhoso
que ela é : simples, verdadeira, profunda". Ana Cristina Souza Gomes, arquiteta e proprietária da Solarium Revestimentos. " Provavelmente você já viu – e até usou – algum objeto que tenha
saído da mente de Renata Rubim. Renata Rubim é uma grata surpresa dentro de nossa revista. Seu pronto interesse em participar nos engrandece como profissionais e pessoas, nos ilumina e lisonjeia
com sua presença".Joyce Diehl, Coordenadora Geral Revestir.com |
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