A história do urbanismo no Brasil registra projetos dos mais variados formatos e conceitos. Goiânia, Brasília e
Curitiba são cidades planejadas em épocas diferentes e com concepções distintas. Depois vieram os condomínios fechados, como Alphaville. Surge agora, o mais recente projeto
urbanístico brasileiro – o centro de bairro da Cidade Universitária Pedra Branca, localizada em Palhoça, na grande Florianópolis, SC, primeiro bairro brasileiro projetado com base nos
princípios do urbanismo sustentável. O conceito deste novo bairro prioriza a caminhabilidade integrada com edificações sustentáveis, desenho urbano que propõe uma centralidade apoiado por uma
infra-estrutura de alta performance. O intuito de recuperar a qualidade urbana perdida nas grandes cidades fez com que os empreendedores contratassem como consultores e coordenadores a DPZ
– Duany Plater-Zyberk Latin América, escritório norte-americano formado por arquitetos identificados com o movimento chamado Novo Urbanismo. Juntos com o renomado escritório
brasileiro Jaime Lerner e diversos escritórios de Florianópolis projetaram a nova etapa da Pedra Branca.
O Novo Urbanismo
surgido nos Estados Unidos na década de 80, destaca-se pelo foco no ser humano e seus valores essenciais – qualidade de vida, contato com a natureza, lazer ao ar livre, possibilidade de praticar saudáveis caminhadas, convivência com a vizinhança, entre outros itens. Ou seja, o homem em primeiro lugar e a cidade a seus pés. "Viver em contato com a natureza sem abrir mão das amenidades urbanas".
Para satisfazer essas e outras necessidades, além de alertar para algumas projeções futuras – em 2025, cerca de 75 % da população do planeta habitará áreas urbanas – a DPZ
definiu diretrizes em conjunto com os arquitetos e urbanistas brasileiros durante as denominadas charretes, método de trabalho que reuniu todos os arquitetos, urbanistas e
consultores envolvidos no projeto num trabalho intensivo, cada um desenvolvendo sua quadra para depois apresentarem seus trabalhos e receberem avaliações e críticas, orientados pela DPZ.
"O grande foco do Novo Urbanismo
é que ele propõe morar, trabalhar, estudar e se divertir ao alcance de uma pequena caminhada. Restabelece a diversidade e complementaridade, ou seja, uso misto", explica a urbanista
Silvia Lenzi
ao afirmar que o princípio primeiro da Pedra Branca é andar a pé, não depender do carro para se deslocar. "Especialmente agora, com essa questão de aquecimento global, camada de ozônio. É quase uma oposição àqueles subúrbios das cidades norte-americanas. Isso significa que pretendemos resgatar o espírito do lugar: numa mesma quadra ou até num mesmo edifício você concentra lojas, mercados, padarias, farmácias, residências, estas últimas com heterogeneidade de classes sociais, com investimento no bom desenho urbano, na qualidade das calçadas, dos equipamentos. Caminhando por dez minutos será possível ter acesso a todos os lugares da cidade", conclui a urbanista. Também não se trata de um condomínio fechado: "Ao contrário, todos os acessos da cidade são abertos, não há nenhuma portaria".
A vizinhança, o convívio social, a interação com o meio ambiente, o ar puro, a sombra das árvores. Tudo isso facilitado pelo planejamento urbano adequado que promove os encontros, as
trocas, as conversas, e até o acesso ao trabalho, que poderá ser feito com uma boa caminhada saudável.
A Cidade Universitária Pedra Branca
está projetada para receber 30 mil habitantes. Não se trata de utopia urbanística para quem vive nas megalópoles como São Paulo, onde, só para se ter uma idéia, são licenciados 500 automóveis por dia.
Ao contrário, fica comprovado que, mesmo na ausência de metrô, é possível desenvolver uma cidade com qualidade de vida, desde que as premissas levem ao bom e rigoroso traçado urbano que
priorize o pedestre, a preservação do meio ambiente, a relação com o vizinho, além de toda a infra-estrutura necessária para o bem viver.
Atualmente, com a instalação da Unisul
e seus dez mil alunos, diversos prédios residenciais e mais de seiscentas casas, a cidade já possui três mil habitantes e gera quatro mil empregos diretos, em cinqüenta empresas já instaladas.
Uma praça, o centro de tudo O espírito das praças das antigas cidades estão sendo resgatadas. O sentido muda, logicamente, porém o desejo das pessoas de possuir o espírito de
comunidade e de lugar permanece ao longo dos tempos. Em pleno século 21, com toda a virtualidade do momento, o que todos ainda anseiam é o velho e bom banco de praça cercada por árvores e flores,
e regado a uma boa prosa.
Na Pedra Branca, a praça é o ponto de convergência das vias e de onde sai um grande eixo com traçado diagonal às quadras, todas posicionadas de forma a se
voltarem para alguns elementos fortes de paisagem. A praça terá de um lado o Centro Cultural, projetado por Jaime Lerner, com teatro de 800 lugares, dois cinemas, salas de
exposições, estúdios de criação, galeria de arte e design, livraria, cafeteria, permeados por praças, ruas internas e um grande espelho d'água. Do outro lado um Hotel
projetado pelo arquiteto André Schmitt.
Também há determinações da DPZ quanto às calçadas arborizadas, que devem ser mais largas do que o normal e ter uma faixa verde entre o
espaço de pedestres e as vias de circulação de carros, além de predestinar os locais de bancos, luminárias, telefones públicos, enfim, a idéia é proporcionar conforto para que as pessoas caminhem
com segurança nas calçadas. Tudo permeado por ciclovias, uma prática saudável nas cidades européias que se pretende adotar em toda cidade de Palhoça, proporcionada pela sua topografia.
Há
sugestão até quanto aos estacionamentos: que sejam implantados no perímetro externo dessa centralidade e não junto aos edifícios, seguindo, assim, a intenção primeira que é a de fazer as pessoas
caminharem, já que os percursos são atraentes e confortáveis e as distâncias, curtas. "Estamos falando de um bairro que resgata valores urbanos tradicionais do bom urbanismo. Esse modelo das
cidades antigas, onde você identifica o padeiro, reconhece o dono da farmácia, senta num bar para conversar, e recupera o espírito do lugar. Isso é o Novo Urbanismo
resgatando o bom e velho urbanismo, enfim o Urbanismo Sustentável e está acontecendo em todos os lugares, não apenas nos Estados Unidos, mas na Inglaterra, no Canadá e inclusive nas novas cidades satélites da China. "Claro que cada país vai adequar essas idéias às suas realidades, mas o espírito é universal", declara
Silvia Lenzi.
Quadras, um universo O projeto da Cidade Universitária Pedra Branca
prevê a formação de 20 quadras que não se restringem a residências, mas a uma mescla – numa mesma quadra haverá edifícios para habitação e escritórios, sendo que diversos terão composição mista. Nos térreos, lojas diversas, livrarias, cafés, padarias, galerias e locais de serviços variados. Dentro disso, há uma orientação da
DPZ no sentido de respeitar não só os locais das galerias, como a volumetria e os miolos das quadras, que devem ter praças e áreas verdes. As fachadas dos prédios, onde a presença de
terraços é constante, tiveram um tratamento diferenciado nos 4 primeiros andares, de modo a criar uma identidade do bairro-cidade.
As quadras também fogem do traçado comum; ora
triangulares, ora retângulos irregulares, assim como as esquinas, cujo tratamento é variado. Cada escritório de arquitetura é responsável por duas quadras, incluindo hospital, hotel,
laboratórios, escolas, centro cultural etc.
Os gabaritos dos edifícios também são variáveis, de 4 a 12 andares, com plantas versáteis e apartamentos de vários tamanhos. Também estão
previstas construções para instalação de empresas no local. Toda a infra-estrutura urbana do centro do bairro de Pedra Branca é subterrânea: Não há aquela profusão de postes e fios que enfeiam
a maioria de nossas cidades.
Pólo da Saúde Aproveitando a sinergia com os cursos para a área médica disponibilizados pela Unisul – Universidade do Sul de Santa Catarina,
Pedra Branca está desenvolvendo um importante pólo de saúde, projetado pelo arquiteto Roberto Simon, que contará com um hospital de porte médio, laboratórios, edifícios para clinicas
médicas e áreas para o comércio e serviços de conveniência relativos à atividade.
Centro cultural, uma atração A inclusão dos moradores de Pedra Branca no mundo cultural será
feita num espaço singular. Projetado pela equipe do escritório de Jaime Lerner, o Centro Cultural Pedra Branca
se apresenta como o contraponto entre as quadras e pátios de caráter privado. O programa abrange um vasto repertório de atividades, tais como um teatro de 800 lugares, dois cinemas, salas de exposições, estúdios de criação, galeria de arte e design, livraria, cafeteria etc. Todos os espaços serão permeados por praças, alamedas internas e um grande espelho d'água que conduzirá a um percurso com exposição sobre a importância da água na história da civilização.
O grande destaque do projeto será o anfiteatro em forma de concha acústica ao ar livre, cujo acesso se dará por uma rampa ajardinada, tendo ao fundo o cenário da Pedra Branca, uma
oportunidade de contemplar o imperdível espetáculo do pôr-do-sol.
Paisagismo, a vida do lugar A qualidade de um lugar pode ser medida pelo verde da vegetação natural existente.
Para Pedra Branca, o arquiteto-paisagista Benedito Abbud
prevê a implantação de árvores em todas as calçadas e praças, o que, além de purificar a atmosfera, propicia mais sombra e frescor aos locais. Outra idéia do profissional é trabalhar com elementos que se relacionem aos cinco sentidos. Então, cores, aromas e formatos se mesclam estimulando paladar, olfato e visão. Como num imenso pomar, as árvores frutíferas estarão exalando seus perfumes, as flores colorindo as construções, pequenos arbustos contrastando com espécies de médio e grande porte. "É a natureza interagindo com o homem e celebrando a vida", diz o paisagista.
Centro aquático, uma realidade Em plena atividade, a Unisul conta com um espetacular centro aquático projetado, na primeira fase, pelo arquiteto Hector Vigliecca.
Comparável ao recém-inaugurado Maria Lenk, no Rio de Janeiro, o complexo está sendo considerado um dos mais tecnológicos do país, chamado de 'a elite das piscinas brasileiras'. São três
piscinas cobertas e aquecidas, das quais uma olímpica, de 50 m. E para o público há arquibancada com capacidade para 2.200 lugares.
Urbanismo sustentável Depoimento de
Valério Gomes Neto, presidente da empresa Pedra Branca, responsável pelo empreendimento. Breve histórico "Até 1998, a Fazenda Pedra Branca tinha como atividade à pecuária, com criação de
gado nelore e cavalos da raça Campolina. Com o crescimento urbano da grande Florianópolis, sentimos a oportunidade de implantar um projeto de urbanização em nossos 250 hectares. Sabendo da
necessidade de uma ancora para iniciar o projeto - ao mesmo tempo em que a UNISUL estava procurando um local para implantar seu novo campus em Florianópolis - rapidamente negociamos com a
universidade uma operação benéfica a todos: A Unisul ganhou o terreno de 150 mil m2 para o campus e a Pedra Branca ganhou a necessária atratividade, ou seja, a âncora. Com o trabalho
de um grupo de arquitetos, liderados por Hector Villeca, Silvia Lenzi e Rolando Lisboa, nasceu em fins de 1999, a Cidade Universitária Pedra Branca. Desde então o projeto já foram
vendidos quase 2.000 lotes vendidos. Temos estimulado a construção de casas sem muros. Livro despertou novos caminhos Em meados de 2005, estávamos procurando maneiras de agregar
valor e qualidade ao empreendimento. Em especial as áreas planas a implantar, quando tomamos conhecimento do movimento Novo Urbanismo, através do livro "Place Making
" editado pela ULI (Urban Land Institute). A leitura do livro, com suas referências bibliográficas e busca facilitada pela internet com a simples demanda de "new
urbanism" nos conduziu a participar de seminários e congressos sobre urbanismo. Todas estas informações foram debatidas com nossa equipe e nos conduziram à formatação do centro de bairro de
Pedra Branca. Foi num desses seminários, mais precisamente , sobre sustentabilidade e prédios verdes (green buildings) que conhecemos o urbanista Andrés Duani da DPZ.
De volta ao Brasil, consultando o nosso consagrado urbanista Jaime Lerner, nos certificamos do bom caminho escolhido. Jaime Lerner
nos disse : É uma releitura do bom e velho urbanismo.
Enfim, para evoluir com inovação, conseguimos juntar uma equipe multidisciplinar liderada pela DPZ, com os arquitetos
Maximo Rumis e Marcela Leiva e alguns dos melhores escritórios de arquitetura de Florianópolis: Desenho Alternativo, Mantovani e Rita, Marchetti + Bonetti, MOS Arquitetos
Associados, RC Arquitetura, Ruschell & Teixeira Netto e Studio Domo. Além do escritório de Jaime Lerner, que projetou o Centro Cultural e o Anfiteatro
e a consultoria de Silvia Lenzi. O paisagismo é de Benedito Abud.
Urbanismo sustentável O conceito do Urbanismo Sustentável aplicado pelo projeto
Pedra Branca integra caminhabilidade com edificações verdes apoiado por infra-estrutura de alta performance. O empreendimento Pedra Branca é o nosso maior empreendimento. Ele irá gerar
mais de 1,7 milhões de m2 de área construída nos próximos anos. Quanto à preocupação com sustentabilidade num novo bairro dessas dimensões ela vai desde os detalhes com o pedestre, passa
por projetos com os prédios verdes, a qualidade dos espaços públicos e toda uma infraestrutura de alta performance, pois estamos focando as áreas de tecnologia e da saúde.
Qualidade e sustentabilidade Sempre tivemos uma verdadeira obsessão pela qualidade e inovação. Nossos dois projetos: o Office Park
parcialmente implantado trouxe inovações e o novo projeto Office Green embarca um conjunto de tecnologias que o qualifica para conseguir a certificação LEED Gold do USGBC.
Isso significa maior conforto ao usuário, bem como, substanciais reduções no consumo de energia e água. O Office Green (www.officegreen.com.br
)
será uma referencia nacional. Um edifício sustentável (green) economiza em torno de 40 por cento de energia, de emissões de carbono e de água. Isso significa uma considerável redução no valor das despesas de condomínio e dos custos operacionais.
Temos que considerar que aproximadamente 80 por cento do custo de um edifício com uma vida média de 50 anos são seus custos operacionais ao longo dessa vida e portanto os custos de construção
são menos relevantes. Estamos convencidos que construir com sustentabilidade significa um pequeno aumento no custo com ótimo retorno para todas as partes envolvidas.
Responsabilidades do incorporador O incorporador ou construtor tem uma responsabilidade enorme com a nova mega tendência da sustentabilidade. As edificações são responsáveis por
aproximadamente 40 por cento do consumo de energia. Os novos clientes, principalmente os mais jovens, já estão demandando essa postura. Estamos chegando de Chicago, onde participamos do
Green Build 2007 (novembro 7 a 9) maior evento do planeta em sustentabilidade no ambiente construído. Entre os grandes palestrantes, pudemos ouvir, Bill Clinton, com a mensagem muito
positiva que temos a oportunidade de virar o jogo através da criação de uma nova economia baseada na sustentabilidade, com geração de novos empregos, novos negócios, enfim infinitas
oportunidades."
Prêmio da Bienal de Buenos Aires "O prêmio recebido na Bienal de Buenos Aires foi para nós o reconhecimento da escolha do caminho certo, com a equipe certa. Foi a
consagração de um trabalho envolvendo 11 escritórios de arquitetura e urbanismo, de três nacionalidades (brasileiros, argentinos e americanos), que estão propondo sustentabilidade não somente nos
edifícios verdes mas principalmente no desenho urbano e seu funcionamento como modelo de uma cidade a seus pés, ou seja, literalmente a cidade servindo ao individuo, ao morador", comenta Valério
Gomes.
Escritórios que participam do projeto Pedra Branca Novo Urbanismo: DPZ - Duany Plater-Zyberk Jaime Lerner Arquitetos Associados Silvia Lenzi Consultoria
Benedito Abbud Paisagismo Desenho Alternativo Mantovani e Rita Marchetti e Bonetti MOS Arquitetura RC Arquitetos Ruschel e Teixeira Netto Arquitetos
Studio Domo Arquitetura e Design
Fotos, informações para imprensa, agendamento de entrevistas: Vicente Wissenbach 11-3721.5601 11-9216.6004
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