É século XXI, diríamos. Mas parece coisa do futuro. Apartamentos(*) com ares de casa, com suas
maravilhosas e enormes varandas
– chegam a 60m2, com direito a churrasqueira, mesa de refeições, estar completo , comportando até 60 pessoas. Perdeu a função de refresco aos fumantes ou aos que se sentiam confinados . Ou a simples função de iluminar, quem sabe ampliar visualmente o apartamento.
Mas não foi só a varanda que mudou: há um grande apelo pela área social e convívio da família: espaços integrados, home theater, home office, e tudo o mais. Mais, mais e
mais. Aliás, nem chamaríamos mais os apartamentos de apartamentos: chamaríamos de casas sobre casas, ou algo assim. Mas o que se nota é que primam pelas melhorias da parte,
digamos, de convívio social e íntimo da casa, mas os quartos – ou suítes, semi ou demi suítes, seja lá qual nome for– estão cada vez menores. Marcas de um novo tempo.
E o que diríamos das áreas de lazer atuais? Ter salão de festas e piscina já não representa mais nada. Sauna já era um luxo, até uma extravagância. Agora tem que ter - no
mínimo - espaço gourmet (sim, cozinhar na frente dos convidados é in, mesmo que seja porque os convidados não cabem no apartamento...).Talvez um Lobby
diferenciado no predio já "denuncia" que ali há, com certeza, a intenção da melhoria. Mas as novidades não param por ai: para conquistar novos "adeptos", as construtores vem de
teen garage (local para a banda, ou pelo menos um espaço para um certo "isolamento" dos adolescentes ),children care
(espaço interno reservado para bebês, com fraldário, brinquedos e espaço para babás), spas ou
verdadeiras academias de ginástica ( muitas com pista de corrida externa) , salas de cinema, lan house (outro "isolamento" em conjunto) , brinquedoteca, etc. Haja fôlego!
Cara de Clube E a parte externa, então? Ganhou espaços sensoriais para bebês, espaços de convívio das empregadas e babás, espaço zen
para os mais centrados, quiosques (ou gazebo, como queiram), charmosos bistrôs , e até campos de golfe, se couber. Sem contar ainda, é claro, as piscinas em formato de raia,
térmicas, sozinhas ou junto a um conjunto de outras que poderíamos muitas vezes chamar de parque aquático. Ou Espaço Praia, como fez a Construtora Cyrela
no Rio, com direito a areia e tudo. E tem gente até oferecendo um parque inteiro à disposição, com árvores que ganham placas de seus novos"donos"...Tudo isso pode ocupar folgados 500mil m2 de área.
Isso sem falar na parte extra de serviços que alguns "ousam" ter: lavanderia, pet care
(claro, aceita-se de bom grado os animais de estimação,e tendo até área para trata-los e, quem sabe, acomoda-los durante as férias?), woman care
( ou salão de beleza) , além de restaurantes e bares - estes, quesitos a mais em apartamentos voltados para solteiros, outro filão do mercado.
Hotel 5 estrelas A
Cyrela apostou forte neste novo segmento no empreendimento Cidade Jardim – praticamente um bairro novo. Além de todos - ou quase
todos - os atrativos citados até aqui, inteligentemente divididos em Espaços – Espaço Saúde, Espaço Praia, Espaço Esporte, Espaço Aquático
- e vários tipos de lazer, tem ainda Home Office com sala de reuniões, Sala de Iniciação Musical (com palco), Salão de festas Infantil, Biblioteca,
Sala do Hobby (uma oficina, boa idéia!), e – pasmem ! - Autorama. Sem falar nos charmosos gazebos para venda de frutas, jornais e flores...um luxo! As opções são tantas - e por
vezes tão extravagantes – que é melhor parar por aqui. Com certeza os serviços devem ser terceirizados. E cai por terra - acho eu - o papel do síndico: quem iria se responsabilizar em
administrar um misto de habitação, clube e shopping?
Sobre isso, a própria Cyrela tem a resposta: Facilities by RJZ/
Cyrela, um sistema único na prestação de serviços, que opera com excelência nos quesitos mão-de-obra e logística. O sistema é o responsável
pela coordenação de todos os serviços básicos do empreendimento, como, por exemplo, internet e intranet, manutenção e conservação das áreas comuns, portaria, concierge, segurança, e até
salva-vidas para piscina. Ainda existe um sistema pay-per-use, visando atender demandas específicas, com serviço de faxina e arrumação dos apartamentos, lavanderia, conserto de
roupas e sapatos, manutenção pontual, personal trainer, massagista, mordomo, bufê para festas, refeições congeladas e recreador infantil. Está mais para serviço de hotel 5 estrelas, não?
Só falta o fosso com o crododilo... Mas qual o verdadeiro motivo – fora estas tantas mordomias para atrair novos clientes – para que as pessoas prefiram os
apartamentos? Comodidade, segurança, isolamento? Para o diretor-superintendente da Construtora Camargo Corrêa, Roberto Perroni, a resposta
é óbvia. "Todo mundo sonha em morar em uma casa, mas na hora de comprar escolhe um apartamento pela segurança", diz. Ou indo mais além:"Infelizmente, a população é hoje obrigada a
viver em verdadeiras fortalezas. Só falta o fosso com o crocodilo. E não duvido que um dia alguém coloque", diz Ricardo Yazbek, da construtora R. Yazbek. (Revista Veja Edição 2026)
Quem sai ganhando ? Não sou contra – até muito pelo contrário. A insegurança
em que vivemos hoje em dia nos faz crer que a casa é nosso refúgio – ou pelo menos se espera que seja. Além do mais, prefiro acreditar que isso poderá trazer de volta o bom convívio da
vizinhança,do corre - corre da garotada, da turma do bairro, das conversas nas calçadas (ou no espaço zen?), das festas comuns. Pode reunir mais amigos do que vizinhos. Pode reunir
iguais ( no espaço Gourmet ou na academia), achar interesses comuns (tratando o cão na pet care, ou conversando alegremente no salão de beleza) e , quem sabe, praticando até
networking numa partida de golfe?
Saem ganhando também os profissionais do setor. Vê-se aqui claramente a intensão de valorizar a vida em família e a vida em comunidade. E isso pede
uma preocupação maior com a casa, com os espaços, e com tudo o que vai dentro deles.Isso quando não são contratados pelas construtoras para fazer apartamentos decorados , além dos espaços comuns
dos empreendimentos.Espaços com grife.
E saem ganhando os fornecedores do setor, desde que estejam sintonizados e se especializem em atender a esta nova demanda, criando
produtos que atendam a este setor em alta, sejam pisos especiais para os mais diversos usos, ,metais agradáveis - e duráveis - para tantos locais, sistemas inteligentes de
refrigeração para agüentar o tranco, e até sistemas de segurança que dêem conta da idéia de fortaleza no ar.
Conforme o engenheiro Marco Diehl, consultor do setor
cerâmico acostumado a atender engenheiros e compradores das grandes construtoras, as empresas do setor – pelo menos as mais antenadas – já estão atentas a estas mudanças. Têm um produto para cada
tipo de uso – externo, deck de piscina, salão de festas, ginástica, espaço gourmet, etc. - , sempre pautados no uso correto dos produtos X espaços, na garantia de durabilidade, resistência e até
fácil manutenção. E têm também o indispensável atendimento especial que esta demanda pede. Para a arquiteta e presidente da Solarium Revestimentos
, Ana Cristina de Souza Gomes, o gestor do condomínio deve buscar um material que além de atender às
necessidades práticas, tenha beleza, segurança e durabilidade. "Nossos pisos combinam com vários ambientes e necessidades. Áreas internas, externas, garagens, jardins, salas e piscinas,
entre outros. Pensando nisso, criamos linhas que compõem com luxo e sofisticação os ambientes mais distintos", explica.
Hoje se nota claramente este tipo de preocupação nas empresas,
como já era de se esperar. Penso que , assim como tem muito espaço para o setor hoteleiro, que cresce a cada dia, este "novo" tipo de empreendimento deve dar um novo gás aos fabricantes e merece
um tratamento diferenciado, à altura do tratamento que despendem aos seus felizes proprietários. Realmente, as varandas - e os apartamentos – não são mais os mesmos.
São casas, sim, mas sem seu próprio jardim...
(*) Apartamento: acto de apartar, separação, retiro, divisão de casas, conjunto das casas que cada inquilino ocupa num prédio.
Imagens: www.vejaonline.com.br e www.cyrela.com.br |